Por que a Língua Portuguesa parece tão difícil?

Não é incomum escutarmos “português é tão difícil” vindo de… falantes de português! É quase uma unanimidade, no Brasil, dizer que português é uma língua difícil. Uma vez, conheci um holandês que falava seis idiomas, incluindo o português, que ele falava com perfeição, sem sotaque, como um brasileiro. Ele me disse que o português não era tão difícil, mas que havia uma dificuldade que o incomodava, uma dificuldade mais de ordem gramatical do que prática: a de que há regras, mas que, para cada regra, há muitas exceções.

Por que isso acontece? Por que há tantas regras com exceções?

Primeiro de tudo, há de se afirmar: o português é uma língua moderna que deriva de outras línguas, tais como o latim, o grego e outras. O português tem uma história antiga como língua que chega a mais ou menos 2000 anos. E isso é tempo demais! Nesse tempo, muitas outras línguas simplesmente sumiram. O português tem uma literatura rica e consolidada, com autores-criadores, ou seja, autores que recriaram e evoluíram a língua. Dessa forma, a língua portuguesa é uma língua nova e antiga ao mesmo tempo: nova, por ser derivada de outras; antiga, porque é falada e desenvolvida há muito tempo.

Além da questão histórica, ainda há questão da atualidade, pois o mundo é cada vez mais comunicativo, mais aberto a trocas (a tal “globalização”). Com a língua portuguesa, isso acontece diariamente. Hoje é falado um português um tanto diferente do que se falava há alguns anos, graças às trocas entre as línguas e graças aos avanços tecnológicos. Palavras como copyright (já há quem escreva copirraite), deletar (que vem do verbo “delete” do inglês), copidesque (vem de copydesk) são empréstimos da língua inglesa e têm a ver com a tecnologia. Esses empréstimos do inglês, chamados de “anglicismos”, são muito comuns, pois a língua inglesa é uma lingua franca, ou seja, é uma língua usada para intercâmbios entre os povos. Veja ainda o caso das faculdades. Quase todo trabalho acadêmico (ensaio, TCC, artigo, dissertação, tese) tem um resumo em inglês. Alguns têm em inglês e espanhol, mas é difícil encontrar algum que não tenha o abstract, o resumo em inglês, pois é essa língua a mais utilizada, também, nas trocas científicas.

O português tem empréstimos do inglês (já comentamos alguns), do francês (abajur, garçom, etc.), do espanhol, do italiano, do alemão (por causa das imigrações) e, possivelmente, teremos empréstimos dos novos povos que estão chegando aqui (haitianos, senegaleses, entre outros, que trazem sua versão de línguas europeias, como o francês, e seus próprios idiomas).

Essas trocas linguísticas, essa entrada de novas palavras, tornam o português uma língua sempre em construção. Mas não é isso que torna a língua difícil, pois a reclamação tem muito mais a ver com a gramática da língua portuguesa que, de certo modo, não evolui junto com língua, mantendo-se mais pura e, ao mesmo tempo, desatualizada. Por causa disso, as pessoas têm dúvidas sobre elementos gramaticais, tais como: crase; concordância nominal e verbal; ortografia; pontuação; etc. Às vezes isso acontece porque não conhecem as normas; em outras vezes, porque o que a gramática prescreve é bem diferente do modo como a pessoa usa a língua no seu dia-a-dia. O problema dessas “regras” são, como disse o meu amigo holandês, as exceções.

A partir de hoje, lançaremos, periodicamente, alguns artigos sobre gramática, apresentando as regras e suas exceções de forma a fazer você entender melhor sobre a gramática, que, no final das contas, é a gramática da sua língua, sendo, portanto, a sua gramática.

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