Crase: por que complicam tanto??? (Parte 2)

O modo que exige mais conhecimento para saber se há ou não crase diz respeito à regência nominal e à regência verbal. Esses dois assuntos estão, nas gramáticas, na parte sobre “Sintaxe”. A sintaxe é a parte da gramática que estuda a relação entre os termos de uma oração. Oração nada tem a ver com reza aqui, mas sim com uma frase que tenha um verbo. O verbo é sempre o centro da oração. Termos são aqueles elementos gramaticais que têm nomes complicados, tais como: sujeito, predicado, complemento verbal (objeto direto e objeto indireto), complemento nominal, adjunto adnominal, adjunto adverbial, aposto, vocativo, agente da passiva.

A regência funciona da seguinte forma: há um termo regente e um termo regido. Na regência verbal, o termo regente é um verbo e o termo regido é um complemento verbal (objeto direto ou objeto indireto). No trecho “vamos à praia”, temos um termo regente, que é o verbo “ir”, que está no presente do indicativo, na 1ª pessoa do plural (nós) – “vamos” –, e um termo regido (que completa o sentido do verbo “ir”) que é “à praia”.

Para entender a regência de um verbo, é preciso “perguntar” algo a ele, por exemplo: “quem vai, vai um lugar ou vai A algum lugar? A regência do verbo é “ir A algum lugar”. Logo, o verbo tem uma regência indireta, ou seja, entre o verbo e seu complemento, há uma preposição que, nesse caso, é a preposição “a”. Desse modo, pode-se afirmar que o verbo ir é sempre acompanhado da preposição “a” (assim como outros verbos e expressões que dão ideia de movimento, tais como chegar a, voltar a, subir a, retornar a, etc.). Sendo assim, é bom saber que esses verbos são aqueles que têm grande chance de estar ligados a uma crase. Com isso tudo em mente, pense que é preciso saber que a regência é algo que tem tudo a ver com a crase. Guarde bem isto: verbos transitivos indiretos são aqueles verbos que precisam de alguma preposição que os ligue ao seu complemento. O complemento, em geral, é composto de um artigo + um substantivo.
Compare:
1.a) O jovem chegou ao colégio atrasado.
O jovem chegou a + o colégio atrasado.
1b) O jovem chegou à escola atrasado.
O jovem chegou a + a escola atrasado.

Em 1.a, temos a junção da preposição “a” com o artigo masculino “o”, já que “colégio” é uma palavra masculina. Essa junção é expressa pela palavra “ao”. Entretanto, em 1b., temos a palavra “à”, pois, de outra forma, teríamos “aa”. De certo modo, poderíamos escrever “aa” para marcar a junção da preposição “a” + o artigo feminino “a”, entretanto, por convenção, escreve-se apenas um “a” com um acento “grave”, ficando “à”. O acento grave é incomum na língua portuguesa atual, servindo, ao que parece, apenas para marcar que há crase, ou seja, a junção de uma preposição com um artigo feminino ou com um pronome demonstrativo que comece com “a” (aquilo, aquele, aqueles, aquela, aquelas).
Exemplos:
2.a)Eu cheguei àquelas ideias depois de muito estudo.
Eu cheguei a + aquelas ideias depois de muito estudo.
2.b) Eu dei um pulo à padaria para comprar pão e manteiga.
Eu dei um pulo a + a padaria para comprar pão e manteiga.

Esses verbos com ideia de movimento, colocados acima, aparecem muito em questões de concursos, porque o uso (língua falada) em alguns lugares do país (em especial no Sul) é bastante diferente do que a gramática manda. Uma frase como “Cheguei à escola” é, geralmente, falada “cheguei NA escola”. “Fui ao parque” ficaria “Fui NO parque”. Essa diferença entre língua falada e língua escrita gramatical é que cria toda a confusão que, em um ambiente de concurso, serve para eliminar candidatos. Concursos, ao que parece, mais do que escolher os melhores, eliminam os que não sabem usar a língua escrita culta ou gramatical. Não lhe parece que quem faz as questões de concurso são pessoas que amam uma picuinha gramatical?

Crase: por que complicam tanto??? (Parte 1)

O “acento indicativo de crase” é um dos maiores problemas dentro da gramática, pois é uma mistura de duas classes gramaticais: a preposição “a” e o artigo definido feminino “a”. Também é a mistura da preposição “a” com os pronomes demonstrativos “aquilo”, “aquele”, “aquela”, “aqueles”, “aquelas”. “Além disso, para a crase fazer sentido, é necessário saber o que é “regência verbal” e “regência nominal”. Por fim, um pouco mais fácil é entender que, na língua portuguesa, existem palavras do “gênero masculino” e palavras do “gênero feminino” (outras línguas possuem também palavras do “gênero neutro”, caso do alemão, por exemplo).

O fato de a crase ser complicada também tem a ver com a velha dicotomia (diferença) entre a língua falada e a língua escrita. A crase, nesse caso, não existe na língua falada, ninguém fala a crase, ela só existe na escrita. Ninguém diz: “Fui a, a craseado, praia”, a pessoa apenas diz “Fui A praia”, o “a”, com ou sem acento indicador de crase, é pronunciado igualmente (o correto aqui seria: “Fui à praia”, entendam esse “A” com um símbolo genérico). Se vocês pronunciarem “a” (primeira letra do alfabeto), “a” (artigo definido feminino), “a” (preposição), “à” (crase) e “há” (verbo haver), o som vai ser exatamente o mesmo. É por esse motivo que a confusão acontece. É muita coisa diferente com um mesmo som!

Para ficar mais fácil, vamos lhes passar um boa dica para compreender quando há e quando não há crase:

Passo 1: Definir se a palavra é masculina ou feminina. Na frase: “No final de semana, eu e minha família fomos A praia.”. Esse “A” deve ser craseado ou não? Vejamos: esse “A” aparece na frente da palavra “praia”. Essa palavra é masculina ou feminina? Para saber isso, é preciso perguntar (a pergunta é boba, praticamente todo falante sabe a resposta): dizemos “a praia” ou dizemos “o praia”? Se a resposta for “o praia”, não haverá crase de modo algum, e, também, possivelmente você fala outra língua que não é o português…

A resposta mais óbvia, que qualquer criança falante de português, mesmo que não tenha pisado ainda em uma escola, é capaz de responder, é: “dizemos ‘a praia’”. SE o artigo que aparece na frente da palavra é feminino, isso significa que a palavra é feminina. Na maioria das vezes, é muito fácil descobrir que a palavra é masculina por causa da sua terminação, pois, em geral, palavras que terminam em “a” são femininas e palavras que terminam em “o” são masculinas. Apesar de isso acontecer quase sempre, existem palavras que são terminadas em “m” (homem) e “r” (mulher). Aí você pode dizer: “é óbvio que homem é masculino e mulher é feminino, todo mundo sabe disso!”. Sim, os falantes de português aprendem isso bem cedo. Ninguém diria “a homem” e “o mulher”. Nesse caso, o gênero biológico tem a ver com o gênero gramatical, mas nem sempre isso ocorre. Com objetos, que não são nem macho nem fêmea, o raciocínio tem que ser o gramatical, o da colocação do artigo definido (ele se chama assim porque define o que vem depois). Artigos definidos masculinos são as palavras “o”, “os” e artigos definidos femininos são as palavras “a”, “as”. Então, como saber se as palavras lápis, telefone, pente, rocambole, xale, xadrez, berimbau, entre outras, são masculinas ou femininas? Ora, isso é simples, basta fazer o famigerado “teste do artigo”. Então, qual seria o correto?

O lápis ou A lápis?
O telefone ou A telefone?
O pente ou A pente?
O rocambole ou A rocambole?
O xale ou A xale?
O xadrez ou A xadrez?
O berimbau o A berimbau?

Palavras masculinas: o lápis, o telefone, o pente, o rocambole, o xale, o xadrez, o berimbau.
Palavras femininas: nessa lista, nenhuma!

A principal regra de crase é: “NA FRENTE DE PALAVRAS MASCULINAS NUNCA VAI CRASE”. Na frente de qualquer uma dessas palavras não poderia haver crase de jeito nenhum! Esse é o erro mais comum. Expressões como “andar a cavalo” e “tv a cabo” não têm crase porque dizemos “o cavalo” e “o cabo”. SE cavalo e cabo são palavras masculinas, a crase não pode aparecer antes delas. Entendeu?

Já uma palavra feminina tem grandes chances de ter uma crase na sua frente!

Falaremos mais sobre crase no próximo post!